Matinta Perera: como a colonização transformou uma encantada em assombração
Originalmente, a entidade não encarnava uma força maligna, mas sim uma manifestação da própria natureza e uma extensão dos poderes dos pajés.
Por Evaldo Vasconcelos - Amazônia Incrível
A Matinta Perera é uma das figuras mais conhecidas da cultura amazônica. É comumente descrita como uma velha feiticeira com capacidades metamórficas. Sob o manto da noite, transforma-se em um pássaro noturno — frequentemente identificado como uma coruja ou, conforme os estudos do folclorista Luís da Câmara Cascudo, como a ave Tapera naevia, conhecida por designações populares como matinta-pereira ou martim-pererê. Sua aparição se dá com a ave sobrevoando a casa da vítima e emitindo assobios agudos, estridentes e desorientadores. O incômodo cessa apenas quando os moradores lhe prometem fumo, café ou cachaça. No dia seguinte, a idosa comparece à residência daquele que firmou o compromisso para cobrar a barganha acordada.
Originalmente, a entidade não encarnava uma força maligna, mas sim uma manifestação da própria natureza e uma extensão dos poderes transcendentais dos pajés. A compreensão desse arquétipo ancestral apoia-se em três pilares fundamentais da cosmovisão indígena.
O primeiro deles é o viés etimológico tupi. O termo “Matinta Perera” deriva de Matia-taperê ou Matiua-taperê, sendo tapera (taper-era) o equivalente a uma aldeia abandonada ou ruína tomada pela vegetação. Dessa forma, o canto melancólico e persistente do pássaro nas clareiras esquecidas da mata simbolizava o contato com os espíritos dos antepassados que outrora povoaram aquelas terras.
Originalmente, a entidade não encarnava uma força maligna, mas sim uma manifestação da própria natureza e uma extensão dos poderes dos pajés.
A historiografia nacional atual reconhece que o despovoamento das regiões centrais do Brasil se deu, em grande parte, pela disseminação de enfermidades trazidas pelos europeus. À medida que os exploradores adentravam a selva, deparavam-se com aldeias abandonadas: seus moradores haviam sido dizimados pelo contágio. Os sobreviventes embrenhavam-se ainda mais na floresta, fugindo da contaminação e da escravidão imposta pelos colonizadores.
O segundo pilar assenta-se na zoofania – a manifestação de uma divindade sob a forma de um animal – e na fluidez das barreiras entre humanos, animais e o plano espiritual — premissas centrais do xamanismo nativo. Na tradição original, a criatura representava o desprendimento do duplo ou a transformação física de um pajé – guardião de um conhecimento ambíguo, voltado tanto à cura quanto ao castigo. Durante a madrugada, o líder espiritual utilizava a forma aviária para exercer vigilância sobre os recursos florestais, monitorar territórios rivais ou punir indivíduos que desrespeitassem as leis internas da comunidade.
Por fim, o terceiro pilar reside na interpretação acústica do assobio como um sinalizador do sagrado. O som onipresente e de difícil localização emitido pela ave funcionava como uma advertência de Anhangá, a divindade tupi protetora da fauna e da flora. Caso um caçador violasse os tabus da floresta ou abatesse animais além das necessidades de subsistência de sua tribo, o silvo do pássaro manifestava-se como uma punição iminente. Para aplacar a força do guardião e obter permissão de trânsito pela mata, o caçador era obrigado a firmar pactos de respeito e oferecer oferendas rituais à terra. Consequentemente, o temor original não se direcionava ao conceito cristão de maldade sobrenatural, mas sim ao rigor da justiça emanada da própria natureza.
Com o tempo, a figura da Matinta Perera foi absorvendo características da Cuca, uma entidade de origem ibérica (portuguesa e espanhola). A Cuca é essencialmente uma versão feminina e brasileira do “bicho-papão” europeu, trazida ao Brasil durante a colonização.
Em última análise, a visão atual da Matinta Perera reflete o processo de aculturação e demonização operado pelos colonizadores europeus e jesuítas a partir do período colonial. A habilidade xamânica de transmutação em animal foi reinterpretada sob a ótica inquisitorial da bruxaria medieval, ao passo que a profunda reverência nativa à integridade da floresta — outrora mediada por complexos rituais de selação com os espíritos — reduziu-se a uma barganha material baseada em oferendas domésticas de fumo e café. Configura-se, portanto, um ser híbrido: enquanto sua estrutura factual e anedótica – a vizinha que cobra promessas no dia seguinte – integra formalmente o folclore luso-brasileiro, a essência do seu assobio e o mistério de sua transmutação permanecem como remanescentes xamânicos indissociáveis do solo amazônico.



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