Bondes, 70 anos sem eles

 


Bondes, 70 anos sem eles

Jornal do Commercio, edição digital de 22.ABR.26 - Por Evaldo Ferreira

Há sete décadas os bondes deixaram de circular, em Manaus, mas até hoje sua bela trajetória de poucas décadas é lembrada.

🚋 Quando Manaus andava sobre trilhos: a era dos bondes elétricos que marcou a cidade

Há cerca de 130 anos, Manaus vivia um momento de ousadia e modernidade. Em meio à riqueza do ciclo da borracha, surgia a notícia da implantação de um dos transportes mais avançados da época: o bonde elétrico. À frente dessa ideia estava o então governador Eduardo Gonçalves Ribeiro, que entre 1892 e 1896 ajudou a transformar a capital em um símbolo de progresso.

Foi ele quem idealizou o sistema e, com olhar de engenheiro, chegou a desenhar o plano piloto das linhas. Em 24 de fevereiro de 1896, promoveu uma inauguração experimental. Curiosamente, a energia elétrica — combustível essencial para os bondes — só seria oficialmente instalada meses depois, em 22 de outubro do mesmo ano, pela empresa Manaós Electric Lighting Company.

⚡ Trilhos que simbolizavam modernidade

Apesar do início promissor, os bondes só passaram a circular oficialmente em 1º de agosto de 1899, já no governo de José Cardoso Ramalho Júnior, sob administração da empresa inglesa Manaós Railway Company.

Durante mais de meio século, o serviço fez parte da rotina dos manauaras. Nem sempre perfeito, é verdade, mas essencial para quem precisava cruzar a cidade ou simplesmente aproveitar um passeio de fim de semana.

🌍 A guerra que parou a cidade

O declínio começou durante a Segunda Guerra Mundial. Com a indústria global voltada ao esforço bélico, peças de reposição deixaram de chegar. Os bondes passaram a operar de forma precária, quase como sobreviventes sobre trilhos conhecidos.

Ainda assim, resistiram por mais de uma década até o fim definitivo, em 1957 — 61 anos após a inauguração oficial. Houve tentativas de retomada, especialmente no governo de Plínio Ramos Coelho, mas os veículos já estavam desgastados demais. No auge, a frota chegou a 45 bondes; no fim, restavam poucos, lutando contra o tempo.

O sistema foi desativado de vez, e em 1962 o cabeamento elétrico foi retirado, encerrando um capítulo importante da mobilidade urbana da cidade.

🪨 Vestígios que resistem

Hoje, os bondes vivem na memória e em alguns fragmentos espalhados pelo Centro. Um deles pode ser visto na esquina da Avenida Eduardo Ribeiro com a Rua 10 de Julho. Outro trecho está preservado no Largo de São Sebastião, ao lado do Teatro Amazonas, onde também foi instalada uma réplica de bonde.

São pedaços de ferro que, mais do que estruturas antigas, funcionam como linhas de memória desenhadas no chão da cidade.

⚠️ Uma profissão sobre rodas (e riscos)

Trabalhar nos bondes também exigia coragem. Cobradores circulavam pelas laterais dos veículos em movimento, sem qualquer proteção, cobrando passagens. Era uma rotina arriscada, enfrentada diariamente por muitos trabalhadores.

🚋 E se eles voltassem?

A ideia de ver bondes novamente em circulação ainda ronda o imaginário local. Há quem defenda versões modernas, elétricas e sem trilhos, funcionando como transporte turístico pelo Centro histórico — especialmente em horários mais tranquilos.

Seria uma espécie de reencontro entre passado e presente: não mais como necessidade, mas como experiência. Afinal, em Manaus, até o silêncio dos trilhos parece contar histórias.




FONTE DE PESQUISA

Jornal do Commercio, edição digital de 22.ABR.26 - Por Evaldo Ferreira





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